Tata Amaral conversa com estudantes no Grajaú

A EE Herbert Baldus, localizada na região do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, foi o palco, na última segunda-feira, 6/11, para a cineasta Tata Amaral discutir o papel da mulher no cinema.

O CineB esteve na última segunda-feira, 6/11, na Escola Estadual Herbert Baldus, localizada no Grajaú, Zona Sul de São Paulo, para exibir o documentário “Causando na Rua”, de Tata Amaral. Após a sessão, a cineasta, uma das mais talentosas e premiadas realizadoras do cinema brasileiro participou de um debate com a comunidade escolar, em que participaram alunos, professores e lideranças comunitárias. Os longas-metragens de Tata Amaral já conquistaram mais de 70 prêmios em festivais nacionais e internacionais. A cineasta também se destaca pela experimentação e originalidade de seus trabalhos e pela liderança feminina que exerce no mercado brasileiro de cinema.

Na abertura oficial, Luiz Cláudio Marcolino, um dos criadores do CineB, a coordenadora pedagógica Elzânia, o coordenador do CineB Cidálio Vieira Santos e o professor Kleber Oliveira.

Às 19 horas, os alunos já lotavam o pátio da escola e buscavam se acomodar para poder acompanhar os documentários de Tata Amaral que abordam o trabalho de coletivos que atuam nas ruas de São Paulo. A cineasta já registrou mais de uma dezena de coletivos que vêm transformando a realidade da capital das mais diversas formas. Para a sessão do Grajaú, foram selecionados três desses documentários compilados no filme “Causando na Rua”.

O primeiro deles, “Quadro Negro por OPNI” apresenta as intervenções do Grupo OPNI, que surgiu em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, por meio da ação “Quadro Negro”, que busca trazer à luz personagens negros importantes para a história do Brasil. O grupo faz uma pintura especial que retrata Luiz Gama, advogado que libertou mais de 500 escravos no Brasil. A ação acontece em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no largo São Francisco, onde Luiz Gama foi impedido de estudar por ser negro.

O segundo documentário, “Expedição pela bacia do Rio Saracura por Iniciativa Rios e Ruas” faz um passeio pela bacia do Rio Saracura. A partir do Museu de Arte de São Paulo (MASP) , na avenida Paulista, Bela Vista, o coletivo caminha até sua nascente. A expedição encontra vestígios de rios canalizados na cidade e tem como lema desenterrar os rios da consciência das pessoas. Para isto, se utilizam de expedientes criativos como pintar as nascentes e trajetos de rios submersos. No passeio, temas como a revitalização destes rios e a abertura deles é discutida com os participantes do passeio e convidados.

O terceiro filme, “Festival Disco Xepa por Slow Food ComoComo” retrata um grupo de Slow Food chamado ComoComo que surgiu na Vila Anglo Brasileira, Zona Oeste de São Paulo, que tem filiação à ação internacional e realiza o “Festival Disco Xepa”. O Festival cria banquetes gratuitos através dos restos de alimentos descartados em feiras livres para mostrar o alto nível de desperdício alimentar nas cidades. A ação se passa em Santa Cecília, região central da capital.

Ao final da exibição dos documentários, o coordenador do CineB, Cidálio Vieira Santos, organizou uma “Roda Viva”, entre diretora e público presente, levando Tata Amaral a conversar por mais de uma hora sobre sua trajetória e o espaço da mulher no cinema brasileiro. “O mercado do cinema é extremamente masculinizado e essa distorção cria modelos de mulheres estereotipadas que não nos representam, exibindo a bunda, mulheres como objeto sexual, barraqueira, ou com perfil excessivamente dócil e submissa aos homens” comentou diante de diversos questionamentos.

Para o aluno do terceiro ano do ensino médio Vinícius, a questão exibida no documentário sobre os rios lhe fez pensar a realidade do próprio Grajaú com seus diversos rios escondidos e a falta de áreas verdes. “Achei importante, a partir de outras periferias retratadas nos documentários, pensar no que acontece aqui”, avalia.  Já para a aluna Gabriela Santos Saraguti do 2ª A, o destaque do debate foi tratar a falta de representatividade das mulheres no cinema brasileiro e em outras profissões. “Os homens ainda contam com melhores salários e condições. A mulher não tem a mesma valorização e há um preconceito quando a opção é por exercer profissões ligadas a Arte no Brasil. Isto ainda é visto como lazer e não trabalho”, pontua.

Na opinião do líder comunitário Mario Luiz Balbino, representante do Fórum da Criança e do Adolescente da região do Grajaú 2, “o CineB é muito importante porque através do cinema brasileiro é possível provocar reflexões importantes e necessárias para o empoderamento de jovens negros da periferia”.

Para o professor de Sociologia Carlos Arraes, que acompanhou todas as exibições do CineB na escola, o projeto constitui-se numa “semente que vem sendo plantada na mente e no coração da garotada. É um projeto de resistência que não celebra o mundo como ele é, mas propõem um novo mundo criado e constituído a partir da iniciativa da própria população”, analisa. Opinião dividida pela professora Elzânia, coordenadora pedagógica da escola há oito anos. Ela acompanha os alunos nas sessões que ocorreram noGrajaú e na [Regional] Paulista. Para ela é possível notar uma diferença de postura dos alunos durante as sessões, o interesse e a participação nos debates. “Eles estão melhorando a cada dia desde que o projeto adotou a escola como local de exibição. É possível notar que os conhecimentos adquiridos via cinema brasileiro qualificaram seus discursos e ações também no cotidiano escolar”, finaliza.

O CineB é um circuito itinerante de cinema realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e pela Brazucah Produções. Desde 2007, o já atingiu um público superior a 56 mil espectadores em mais de 430 sessões gratuitas realizadas em comunidades de São Paulo. A iniciativa busca democratizar o acesso ao cinema nacional e divulgar os filmes produzidos no Brasil. Foram exibidos na tela do CineB mais de 100 longas-metragens e 69 curtas-metragens, além da realização de pré-estreias exclusivas.

CineB Na EE Herbert Baldus

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5 comments

  1. Foi uma noite de prazeres! Documentários interessantíssimos e explanação da Tata fabuloso no debate! Volte mais vezes!

  2. Excelente oportunidade de aprendizagem além das paredes da Unidade Escolar para nossos alunos. Noite do cinema brasileiro mostrando que somos capazes de vencer barreiras e desafios, unindo a educação e a arte cinematogafrica. Muito bom!

  3. Cinema fabrica de sonhos , cineB assegura essa possibilidade. Noite linda , Tata Amaral realidade , palavras segura . Verdade.

  4. Momento ímpar de descontração e informação. Os documentários exibidos são excelentes e o debate com Tata Amaral despertou a curiosidade e o Interesse entre os presentes deixando um “gostinho” de quero mais.

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