Sessão especial na Ocupação Povo Sem Medo

Cerca de 300 pessoas acompanharam, na última sexta-feira, 15/12, a exibição ao ar livre do filme “Apart Horta”, de Cecília Engels na Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo. Após a exibição, a diretora participou de um bate-papo com o público.

Sessão ao ar livre na Ocupação Povo Sem Medo reuniu cerca de 300 pessoas. Veja todas as fotos no final do post.

O projeto CineB encerrou a temporada 2017, na última sexta-feira, 15/12, com uma sessão especial ao ar livre, na Ocupação Povo Sem Medo, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Bernardo do Campo em frente à portaria da multinacional Scania. A sessão exibiu o filme “Apart Horta” de Cecília Engels e contou com um dos maiores públicos do ano. O clima na ocupação foi de festa e confraternização, beneficiado por uma belíssima e agradável noite.

Roseni, do Sindicato dos Bancários, e Cidálio, do CineB, sortearam brindes para o público antes do início da sessão.

A ocupação é uma luta por moradia dos trabalhadoras e trabalhadores que moram em São Bernardo do Campo. Conta com 8.600 acampados que reivindicam a implantação de um projeto de habitação no terreno de 60 mil metros quadrados localizado no bairro Planalto, próximo à Via Anchieta, que estava abandonado havia 40 anos. Teve início no dia 1º de setembro e já passou por momentos de tensão, com ataques da mídia, de moradores do entorno da ocupação e por decisão da justiça pela reintegração de posse, derrubada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Segundo Cláudio Rocha, uma das lideranças do movimento, a intenção de ocupar a área abandonada foi “mostrar o tamanho do déficit habitacional que existe em São Bernardo, e criar uma função social para o terreno ocioso”, explicou.

CineB e categoria bancária se solidarizando com MTST.

Iniciativas culturais no local já foram barradas. Em outubro, por exemplo, a justiça impediu a realização de um show com Caetano Veloso, Criolo, Maria Gadu e Péricles, para comemorar os 20 anos do MTST. O evento foi acontecer somente no último dia 10/12, no Largo da Batata, em São Paulo. Segundo Andreia Barbosa, que integra a organização estadual do MTST e a organização da Ocupação Povo Sem Medo, as pessoas não têm onde morar, não tem acesso ao emprego e acabam se deparando com a falta de acesso à cultura também. “É tanta preocupação para colocar o pão de cada dia dentro de casa, que a gente esquece de reservar um tempo para o lazer, para se divertir, para estudar e para ver bons filmes”, reflete.

Pipoca de graça para o público que acompanhou o filme.

Por isso o CineB decidiu oferecer um momento de lazer para os trabalhadores da ocupação, segundo o coordenador do projeto, Cidálio Vieira Santos. “Aproveitamos o encerramento da temporada para nos solidarizar com a luta dos trabalhadores acampados em São Bernardo e oferecer uma momento de cultura e lazer. O filme da Cecília [Engels], ‘Apart Horta’, aborda com muito humor uma temática interessante que é a produção caseira do próprio alimento”, informa. Cidálio conta que organizar a sessão também não foi fácil. A Guarda Civil Municipal de São Bernardo, que controla o acesso à rua que leva ao acampamento dificultou a entrada dos veículos com os equipamentos. “A situação só foi resolvida com apoio e mobilização dos integrantes da ocupação que ajudaram a transportar todo o material de produção ao local da exibição”, completa.

A diretora Cecília Engels, em bate-papo com o público ao final da sessão.

Escrito e dirigido pela jovem cineasta paulistana, “Apart Horta” conta a história da baiana Nazaré que vai a São Paulo pela primeira vez para visitar seu irmão Natanael, que tem um estilo de vida voltado ao trabalho. Nazaré vive uma relação saudável com as pessoas, a natureza e a alimentação. Aos poucos trazendo seu axé e cultivando alimentos no apartamento, Nazaré germina a transformação no ambiente da vida de Natanael e do prédio em que ele vive. O filme é entrecortado com quatro mini-documentários de personagens reais que realizam experiências de cultivo de alimentos na cidade de São Paulo.

O público ocupou em pouco tempo as 200 cadeiras que a produção do CineB levou e foi necessário providenciar bancos do próprio movimento e muitas pessoas assistiram em pé ou sentadas no chão. E se divertiram com as histórias de Natanael e Nazaré. Após a exibição, Cecília Engels respondeu, num descontraído bate-papo, muitas questões sobre agricultura urbana e ouviu muitos elogios sobre a sessão. Foi o caso de Janaína Lima Santos, 24 anos, que nasceu na região de Franca, interior de São Paulo, e mora há 5 anos em São Bernardo. Mãe de 3 crianças, luta pelo direito a uma moradia digna e nunca tinha ido a um cinema. “Achei muito importante. Falei, vou lá ver e foi muito bom, eu não imaginava isso. Dei muita risada”, revela.

Uma das mais empolgadas era Jupira da Costa Santos, 70 anos, moradora de uma precária casa no bairro dos Vianas, divisa entre Santo André e São Bernardo, que luta para poder ter uma vida melhor. “Eu assisti um filme assim, itinerante, na infância, lá em Minas. Devia ter uns 12-13 anos e nunca mais esqueci”, recorda. Ela conta que mexer com plantas faz parte de sua vida desde sempre. “Nasci na roça e mesmo quando eu vim para São Paulo, em 1973, nunca parei. Até na escola onde eu trabalho eu comecei a plantar”, destaca.

Para Cecília, a relação das pessoas com a terra é muito transformadora, porque ocupar a terra, plantar o seu alimento, é muito subversivo. “O sistema quer lhe manter no mecanismo da compra no supermercado. Então ocupar esse espaço e daqui tirar o sustento é gerador de transformação. Espero que o filme contribua reforçando ainda mais essa ideia e inspire para que o povo possa ocupar também esse espaço para o plantio de alimento”, destaca. Andreia, uma das lideranças do movimento explicou que a ocupação se preocupa com o meio ambiente e com a questão da produção de alimento. “Temos 19 cozinhas coletivas e para cada uma temos uma composteira que vai produzir o adubo para plantar, além de realizar a separação para reciclagem”, aponta.

Maria Rosani, que integra da executiva do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, que participou da sessão lembra que o CineB foi criado para levar alegria e reflexão para as pessoas, chegando nos locais menos favorecidos, onde a cultura não chega. “Nosso Sindicato luta pelo todo, por questões de moradia, pelo transporte, pelo bem estar de todos. Nossa luta sempre é por melhores condições de vida para todos os brasileiros” revela. Ao final da sessão Rosani ouviu os pedidos dos moradores da ocupação e uma nova sessão do CineB será marcada para acontecer em janeiro de 2018 para atender ainda mais pessoas.

Belmiro Moreira, presidente do Sindicato dos Bancários do ABC, também participou da sessão. Ele explica que desde o primeiro dia da ocupação o sindicato dá apoio ao movimento. “É uma ação importante do CineB, trazendo arte para a ocupação porque a luta aqui é por moradia, por dignidade, mas também por poder ter cultura, lazer, entretenimento”, elogia. Luiz Cláudio Marcolino, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e um dos idealizadores do CineB destacou a importância da escolha do filme para o sucesso da sessão. “A gente vê que muitas das pessoas daqui vieram de outros estados e trabalharam na terra. Então percebemos essa identificação da luta pela moradia com a luta pela terra”, finaliza.

O CineB é um circuito alternativo de exibição que, desde 2007, leva cinema brasileiro para várias regiões da capital paulista e adjacências. O projeto, realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e produzido pela Brazucah Produções, já contabiliza um público superior a 60 mil pessoas em mais de 480 sessões gratuitas em comunidades e universidades de São Paulo. Já foram exibidos na tela do CineB mais de 116 longas metragens e 73 curtas metragens.

CineB Na Ocupação Povo Sem Medo

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