Bacurau estreia no CineB

Foi uma sessão histórica, que ocupou três auditórios na sede do Sindicato dos Bancários de São Paulo em exibição simultânea. O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedor do Prêmio do júri de Cannes, foi visto por estudantes, representantes dos movimentos sociais e público que foi em peso ao CineB.

O público lotou três auditórios que exibiram a sessão simultaneamente

Pela primeira vez, o CineB exibiu uma sessão em três espaços transformados em salas de cinema, simultaneamente, na última quarta-feira, 09/10. A sede do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, localizada na região central da capital, parecia até um cinema comercial, com filas de espera para entrar nos auditórios Amarelo e Azul, além do auditório da Faculdade 28 de Agosto, administrada pelo Sindicato, e que fica no primeiro andar do prédio Martinelli. Tudo por conta, da estreia, no projeto, do longa-metragem “Bacurau”, dos cineastas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Prêmio do Juri no Festival de Cannes, em maio deste ano.

O filme está em cartaz nos cinemas comerciais e tem levado um grande público às salas de cinema para acompanhar a fábula que cabe muito bem no momento de violência e intolerância que a sociedade brasileira vive. E como o povo pode criar diferentes formas de resistência diante desse processo.

Sinopse

Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.

Cidálio Vieira, coordenador do CineB, com os diretores do Sindicato dos Bancários na abertura da sessão

Mendonça já teve outro filme exibido pelo projeto – Aquarius – e participou do Prêmio CineB do Cinema Brasileiro, em 2016. Ao lado de Dornelles e sua equipe, tornaram a obra um dos pontos altos à crítica do controle e da censura que o governo Bolsonaro tem feito à Agência Nacional de Cinema (Ancine), cancelando apoios e financiamentos de projetos em execução, atrelando a agência pública a uma pauta ideológica de direita, dizendo que irá financiar apenas filmes que tratem de temas que o governo Bolsonaro considera importante.

O público tem visto o filme como um grito de alerta ao projeto neoliberal e totalitário das elites brasileiras. E tem valorizado a obra no Brasil e no mundo. Não foi diferente no CineB. Divulgado apenas pelo blog, redes sociais, e nos boletins do Sindicato e da CUT, o projeto recebeu, por e-mail, um número expressivo de pedidos de reserva. Estiveram presentes na sessão Escolas, como a Estadual (EE) Herbert Baldus, localizada no Grajaú, Zona Sul de São Paulo, que sempre participa das sessões organizadas na sede do Sindicato, e a EE Professor Leopoldo Santana, que fica no Capão Redondo, também Zona Sul, e pela primeira vez participou do projeto, além do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) de Perus, na Zona Norte, e a turma de Orientação Comunitária do Sesc Aclimação, e também estudantes, professores, sindicalistas, integrantes de movimentos sociais e entidades parceiras do CineB.

A abertura da sessão no auditório Azul, com os professores da EE Herbert Baldus e Cieja Perus 1

O auditório Amarelo, onde normalmente acontecem as sessões (possui 80 poltronas e pode receber mais 20 cadeiras), ficou pequena para o público que compareceu. Foi preciso montar uma segunda sala no auditório Azul, com suas 110 poltronas e mais 40 cadeiras extras, além do auditório da Faculdade 28 de Agosto, que acomodou cerca de 60 pessoas. Muitos braços amigos, como a equipe da Secretaria de Organização e Suporte Administrativo do Sindicato, coordenada pela Ana Laura, a equipe de redação e diagramação do Sindicato e a equipe da Faculdade 28 de Agosto (Jaci e Jandira) foram fundamentais para que tudo funcionasse.

Para o público, era só expectativa antes das exibições. E elogios nos debates que aconteceram após as apresentações. Todo o processo foi comandado por Cidálio Vieira Santos, que há quase 13 anos está à frente do CineB. Kleber Oliveira, professor de história da EE Herbert Baldus, lembrou que o filme é de extrema importância para a formação do jovem que mora nas periferias. “O cinema brasileiro fica exposto, majoritariamente, para uma classe média remediada e nós, periféricos, acabamos não tendo acesso”, salienta.

Chegada dos alunos da EE Professor Leopoldo Santana ao Sindicato dos Bancários de São Paulo

A professora de artes do Cieja Perus 1, Guivener Santos de Souza, que recebeu pela primeira vez o CineB neste mês (veja a matéria aqui) conta que cerca de 20 alunos foram à sessão. “Não é só o cinema ir até a escola, mas a possibilidade dos alunos poderem ocupar os espaços de cultura do centro da cidade. Isso é transformar as pessoas pela cultura”, destaca.

Mas não foram somente a professora e os alunos do Cieja que festejavam a participação. Helder Miranda, diretor da EE Professor Leopoldo Santana, que foi à exibição acompanhado dos professores, destacou a possibilidade dos alunos de Capão Redondo “terem acesso, pela primeira vez, a uma exibição de cinema com a qualidade de ‘Bacurau’”, comemora.

No dia, a diretoria do Sindicato dos Bancários participava do 18º Congresso da Central Única dos Trabalhadores, o CONCUT, na Praia Grande. Mesmo assim, diretores como Marcos Amaral e Willame Vieira de Lavor estiveram na abertura da sessão do auditório Amarelo. O diretor de Cultura do Sindicato, Marcelo Gonçalves, que estava na cidade do litoral paulista, chegou a tempo de participar do debate no auditório Azul. “Esse filme dialoga com a realidade brasileira, que possui um governo autoritário que tenta censurar a liberdade de expressão e acabar com os direitos dos trabalhares. ‘Bacurau’ fala um pouco isso e abre o espaço para o debate, para o diálogo, para a discussão”, considera.

O debate aconteceu com o público de cada um dos auditórios

Ao final das três sessões o público ovacionou o filme. Nos debates aconteceram muitas manifestações de aprovação e chamadas à reflexão e à ação: “uma porrada no estômago”, comentou Artur Oliveira Santos, estudante, que se prepara para o Enem. Para Andrei Augusto Ronc, historiadora da arte, o filme a deixou em “estado de choque”. É necessário “acordar dessa letargia que a gente foi cair, um buraco que foi caindo, caindo e que não vai sair dele individualmente. Vai sair junto, e essa força virá das classes mais baixas, dos movimentos sindicais, dos professores, dos estudantes, dos movimentos de luta negra, LGBT, mulheres”, destaca.

Roger Itokazu, professor de desenvolvimento social do Senac, disse que trouxe 12 alunos para “fazer uma formação ampla e política neste momento em que os direitos sociais e as políticas públicas têm sido um grande alvo de desmonte por parte de interesses privados e financeiros. Estou agraciado pela iniciativa do Sindicato dos Bancários e do CineB”, finalizou. Durante toda a sessão a reportagem conversou com representantes de entidades como a ONG Centro Social Santos Dias, ONG Juntos, Movimento Cultural da Penha, Coletivo Sociedade Civil Organizada (Soco) entre outras e estudantes, jornalistas, pesquisadores, professores, e pessoas que souberam da sessão, não conheciam o projeto CineB, e tiveram a oportunidade de participar de uma sessão muito especial.

Marcelo Gonçalves, diretor de Cultura dos Bancários no debate que aconteceu no Auditório Azul

Uma nova exibição do longa-metragem “Bacurau”, desta vez com o carro do CineB Solar, está marcada para acontecer no próximo dia 1º de novembro, na Nova Palestina, ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), com a presença do coordenador do movimento, o filósofo Guilherme Boulos. E quem sabe contaremos com a presença de Kleber Mendonça Filho ou Juliano Dornelles para participar de um debate. O convite está feito. Até a próxima sessão!

SOBRE O CINEB SOLAR
O CineB Solar é um circuito itinerante de cinema realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e pela Brazucah Produções. Desde 2007, o já atingiu um público superior a 66 mil espectadores em mais de 550 sessões gratuitas realizadas em comunidades e universidades de São Paulo. A iniciativa busca democratizar o acesso ao cinema nacional e divulgar os filmes produzidos no Brasil. Já foram exibidos na tela do CINEB mais de 130 longas-metragens e 80 curtas-metragens, além da realização de pré-estreias exclusivas.

Bacurau Estreia No CineB

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13 comments

  1. Parabéns, Cine B!
    A iniciativa de democratizar o cinema é de encher o coração e nos convoca a pensar sobre a função da cultura em nosso país!
    Como pode um povo, tão diverso e potente, não acessar os bens culturais e artísticos que produz?
    E ainda mais… Quando acessa, a imagem que vê não representa sua realidade, sua identidade, suas belezas e contradições sociais?
    Percebemos, eu e minhas alunas do Senac Aclimação, que o projeto Cine B, responde a essas provocações, travando uma dura e qualificada disputa entre a Sétima arte que oferecem e o entretenimento vazio a que presenciamos no cotidiano.

    PARABÉNS CINE B e Sindicato dos Bancários pela intensa experiência estética e política que proporcionam!

    Vida longa a criação e difusão das belezas do povo brasileiro!!

  2. Assisti ao filme e aí vai a minha opinião.
    A primeira sensação que me ocorreu, foi provocativa: se o Lula tivesse participado e ganhado as eleições, provavelmente esse filme seria culturalmente consumido como um faroeste nordestino, uma espécie de cangaço que articula as tecnologias da comunicação com a tradicional ação guerrilheira de Lampião em defesa do nordestino sofrido.
    Mas a conjuntura é reacionariamente outra. E como a arte sempre exerce uma função social condicionada pelo momento histórico no qual se realiza, acho que Bacurau pode ser “consumido” hoje como uma alegoria papo reto contra a ultradireita fascista e seus astecas.
    Isso porque o faroeste insano retratado no filme, pode ser subjetivamente contextualizado tanto no sujeito fascista de Bolsonaro, como nas milícias e policias que matam nas periferias em nome da ordem e da paz da propriedade privada do capital.
    E ainda. O filme apresenta de forma forte e significativa o indivíduo patriótico que justifica a necessária violência em nome de uma raça humana superior. Alegoriza a criminalização das reivindicações básicas por água, educação, saúde e dignidade. Com destaque para a hipocrisia da representação política “democraticamente” eleita, que arroga defender e cuidar dos cidadãos bacurianos, enquanto contrata mercenários para liquidar a comunidade “rebelde” que teima em não se submeter (ainda que tenham que consumir psicotrópicos para resistir).
    Também vale a pena atentar para as problematizações metafóricas específicas entre a tragédia ficcional e seus personagens. Por exemplo, na condição de miséria e opressão em que vivem, dramatiza como os sujeitos lidam com a hipocrisia da moralidade e da ética. Como a comunidade compreende a função social contraditória entre o sujeito criminoso e o sujeito político. Como agem coletivamente para superar a condição de uma comunidade alienada e submissa, subvertendo a ordem e se rebelando contra a opressão.
    Foi curioso que em alguns momentos de violência exacerbada no filme, ocorreram aplausos e até agito de pessoas vangloriando o enfrentamento direto e a morte dos mercenários. Sujeitos que estavam a serviço não apenas da dominação e opressão sociopolítica e ideológica, mas também atuavam pela mera satisfação pessoal de matar o outro inferior. Inclusive, na saída, um grupo debatia divergências se era ou não correto aplaudir aquele tipo de violência contra os mercenários, se isso não nos tornava igual a eles.
    Acho muito bom e necessário esse debate provocado pelo filme. Porque problematiza a prática da violência como opção de indivíduos ou como uma condição coletiva de existência. Ou seja, os mercenários e o político (prefeito) praticam a violência como uma opção estratégica para controlar e oprimir, submetendo e matando. Nesse contexto, a comunidade passa a praticar a violência não apenas para se defender, mas também para superar a opressão e se emancipar. Para derrotar e expurgar a opressão. Não por opção, mas por uma condição imposta pelo poder da opressão. É morrer ou matar, mas a serviço do quê? Creio que a música cantada no filme por Vandré, responde a essa questão.
    Convém ressaltar que a comunidade que foi à luta, não é composta por personagens militantes de esquerda ou ativistas, mas por sujeitos individualmente carregados de preconceitos, religiosidade, oportunismos e falsa moral. Mas que vivem na mesma condição explorada e oprimida de existência. Uma vez liberta, a comunidade pode tratar de superar essas contradições e promover a emancipação da individualidade humana. Nesse sentido, vejo como uma bela metáfora potencializada no filme.
    Por fim, achei muito significativa a opção do diretor em desmoralizar o político colocando-o sobre um burrico, e enterrando o sujeito-líder fascista. Um bom filme. Mediano enquanto linguagem cinematográfica, mas significativo enquanto valor e discurso em favor da auto-organização das lutas das trabalhadoras e trabalhadores.
    Mário Sérgio Godoy
    Outubro/2019.

  3. Parabéns Cine B,mais uma vez obrigado pela oportunidade, sempre bom participar e ter a oportunidade de permitir o acesso a cultura e cinema nacional.

    Contém conosco no que precisar!

  4. Parabéns a este projeto maravilhoso que proporcionando às pessoas a oportunidade de assistir filmes, sendo que muitos deles não teriam essa oportunidade de outra forma, como por exemplo, os nossos alunos do Cieja Perus em que muitos não tinham tido a oportunidade de ir ao cinema e o projeto proporcionou isso. Parabéns.

  5. Em nome do Cieja Perus.
    Agradeço a acolhida e disposição em teceber nosso grupo.
    É um filme que com certeza que merece um desdobramento em sala de aula.
    Cine B Solar Parabéns pela trajetória e pelos projetos desenvolvidos.

  6. Primeiramente agradecer pelo convite e Parabéns CineB pela iniciativa de oportunizar as pessoas o acesso a obras como Bacurau, um filme instigante que retrata de forma alegórica a atual conjuntura em que nosso país se encontra. Vida longa ao projeto!

  7. Olá bom dia, eu assisti o filme e gostei pois o filme retrata um pouco da nossa história dos interesses políticos,

  8. Foi muito bom! O filme é ótimo a equipe do cine B sempre ouve a voz do público Parabéns!

  9. Cine B prova que Cultura pode, e deve, estar democraticamente presente no cotidiano de todas classes. O filme BACURAU, provocativo, e mostra uma ficção q, não está tao longe de virar realidade. Meio faroeste à moda cangaço. Aquele banho de sangue já acontece em nossas periferias. Assim como os interesses da classe dominante determinam quem morre e quem vive. Cidálio um grande anfitrião, pipoca deliciosa. Cine B, uma ideia genial e uma ação especial!! Amei!!

  10. Fantástica iniciativa que sempre faço questão de participar e divulgar pois temos muita carência de propostas deste nível. Parabéns ao Sindicato dos Bancários , parabéns Cidálio e toda equipe maravilhosa e de fato, depois de Aquários, também com nossa amada Sônia Braga, BACURAU prá mim foi um marco muito importante principalmente no momento atual onde a nossa sociedade necessita acordar desse marasmo de acreditar em kit gay, facada fake news e tantas outras escrescências que está nos levando a tantas barbáries e ver os meus ancestrais, verdadeiros donos destas terras continuar sendo massacrados ( ontem mesmo infelizmente mais um de meus irmãos indígenas se suicidou ), retirados de suas terras com incêndios criminosos com o único objetivo de entregar as reservas de minérios. Milhares de animais que foram queimados vivos sem contar a consequência desastrosa e irreversível desses mais de 6 mil focos de incêndios.
    Por isso que unindo forças a esse maravilhoso trabalho de consciência e que tinha que vir do meu maravilhoso nordeste, povo amado, politicamente correto e que nunca se deixou vender ao imperialismo ianque eu brado a palavra de ordem mais certa para o momento:
    ANULA A CHAPA BOLSONARO/ MOURÃO!!!!!!!

  11. #ANULAACHAPABOLSONAROMOURÃO
    #ANULAACHAPABOLSONAROMOURÃO
    #ANULAACHAPABOLSONAROMOURÃO##S .O.C.O.#SOCIEDADECIVILORGANIZADA
    #S.O.C.O.#SOCIEDADECIVILORGANIZADA
    #S.O.C.O.#SOCIEDADECIVILORGANIZADA

  12. Parabéns Cine B, muito obrigado pela oportunidade…., uma iniciativa fantástica ao acesso a cultura, ao cinema nacional…., que Projeto Maravilhosoo…
    Quero também agradecer a atenção, a acolhida de toda equipe empenhada em promover o bem estar de todos, sem falar da importância…., da reflexão crítica apresentada no filme…., Parabéns!!!

  13. Primeiramente gostaria de agradecer ao Projeto CineB por mais uma oportunidade. Bacurau é um filme maravilhoso, onde as cenas do filme em si é uma mais emocionante que a outra, e a mensagem que o filme passa é facilmente compreendida pelos seus telespectadores. PARABÉNS!

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