Democratização do acesso ao cinema é tema de redação do Enem

A redação da prova do Enem deste ano tratou de um tema muito especial  para nós, do CineB Solar e da Brazucah Produções: a democratização do acesso ao cinema no Brasil, um trabalho que nós desenvolvemos com muito orgulho e empenho há mais de 12 anos.

Guilherme Boulos (MTST), Cidálio Santos (CineB Solar), Jussara Basso (MTST) e Cynthia Alario (Brazucah) numa sessão na ocupação Nova Palestina dia 1º/11

“Democratização do acesso ao cinema no Brasil” foi tema da redação da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada no último domingo, 3/11. A redação, uma das provas mais esperadas entre os alunos pelo peso que tem na pontuação, abordou o acesso ao cinema comparando a relação entre as salas de cinema no Brasil nos anos 1970 e nos dias atuais. Segundo o enunciado, o país chegou a ter, em todo o território nacional, 3.300 salas de cinema em 1975, em 80% dos municípios do país, e esse número foi caindo até a ficar com cerca de 1.000 salas de cinema em 1997. Hoje, apesar da população ser muito maior, existem apenas 2.200 salas de cinema.

Dois dias antes da prova do Enem, na abertura da sessão que o CineB Solar organizou na Ocupação Nova Palestina, Zona Sul de São Paulo, para exibir “Bacurau”, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a diretora executiva da Brazucah Produções, Cynthia Alario lembrou que menos de 10% dos municípios brasileiros têm sala de cinema, a maioria, cidades grandes, e as salas de cinema desses municípios se concentram nas regiões de alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “O valor do ingresso no Brasil é um dos mais caros do mundo e boa parte da população fica sem acesso às salas de cinema”. Diretora da Brazucah Produções há mais de 15 anos, Cynthia fez uma live nesta terça-feira, 5/11, para falar do CineB Solar e do Cinesolar, projetos de democratização e acesso ao cinema brasileiro. “Para nós, o filme só vira cinema quando ele é visto. Hoje é possível se assistir a filmes no celular, na internet, em outros veículos, mas ir a uma sala de cinema é um ato social, político e cultural”. explicou.

Onde o CineB Solar vai, tem pipoca para toda a família. Sessão na Zona Leste de São Paulo

Cidálio Vieira Santos, coordenador do CineB Solar desde sua criação, em 2007, comenta que recebeu muitas mensagens de estudantes que participaram do Enem ou de seus familiares, dizendo que os jovens lembraram e citaram o projeto na redação. “Para os estudantes que acompanham as atividades do CineB Solar, as nossas sessões são, de fato, uma aula sobre acesso à democratização do cinema no Brasil”, destaca Santos.

Além do alto valor do ingresso, em São Paulo o custo da pipoca nas redes comerciais é responsável por excluir o público das salas, pois muitas vezes ela é maior que o preço do cinema, impedindo muitas famílias de fazerem esse programa com filhos. “No CineB Solar, oferecemos um saquinho de pipoca gratuito para quem vem à sessão, e o público pode repetir à vontade”, explica Santos. Cynthia lembra, também, que o CineB Solar exibe exclusivamente produções nacionais: “está à frente da demanda, porque além de garantir o acesso ao cinema, o projeto garante o acesso ao cinema brasileiro”.

CineB Solar exibe os filmes através de energia solar, captada e armazenada em uma van, unindo cultura e sustentabilidade no mesmo projeto

Quem frequenta o CineB Solar, uma parceria entre o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e a Brazucah Produções, sabe que o cinema brasileiro tem excelentes filmes. Desde 2007, foram exibidos mais de 130 longa-metragens e 80 curta-metragens, todos brasileiros. Longas como “Bacurau”, “Irmã Dulce”, “Que Horas Ela Volta?” ou os curtas “Dono de Casa”, “Dela” ou “Bicho do Mato” estão atualmente em cartaz no projeto e foram exibidos nas últimas semanas.

Sérgio Gag, diretor e produtor de cinema, que está com o documentário “Fios de Alta Tensão” em cartaz no CineB Solar – próxima exibição será sábado, 9/11, 19 horas, no Largo do Rosário, Penha, ao ar livre -, lembra que o maior desafio para quem faz cinema no Brasil é justamente conseguir chegar ao público. “O circuito tradicional de salas de cinema é concentrado e viciado e a grande maioria dos filmes realizados não é assistida. O cenário tecnológico e cultural está em permanente evolução e uma série de iniciativas, dentre as quais o CineB Solar, procura alternativas para o gargalo da distribuição, mas esse é um assunto geralmente restrito ao mundo do cinema. Ao abordar esse tema, os organizadores do Enem trazem essa discussão para a sociedade e permitem que se façam analogias para toda a circulação (e censura) da arte e da cultura”, avalia.

O CineB Solar chega onde o povo não tem acesso ao cinema. Na foto, City Jaraguá, Zona Norte de São Paulo

Até hoje, o CineB Solar alcançou mais de 70 mil espectadores, superando as 550 sessões gratuitas realizadas em comunidades em todos os cantos da cidade de São Paulo e Região Metropolitana, levando o cinema brasileiro e a cultura nacional para quem não tem acesso nem condições de ir a uma sala de cinema comercial. E deseja boa sorte aos alunos e alunas que nos citaram em suas redações.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.