Elenco debate “Selvagem” em escola do Capão

Os atores e produtores do longa-metragem “Selvagem” participaram, na última quarta-feira, 11/03, de uma sessão ao ar livre na EE Leopoldo Santana onde participarem de um debate com os alunos da escola localizada no Capão redondo, Zona Sul de São Paulo.

Atores, diretor, produtor, professores e alunos após exibição do filme

Nem o leve frio que assola o final de verão da capital paulista esfriou o debate que o CineB Solar organizou na Escola Estadual Leopoldo Santana, região de Capão Redondo, na Zona Sul, com os atores e produtores do longa-metragem “Selvagem”, dirigido por Diego Costa.

A escola, que no final do ano passado recebeu o projeto pela primeira vez, recebeu um filme que ainda está circulando nos festivais nacionais enquanto se prepara entrar no circuito comercial. “Selvagem” retrata, de forma ficcional, as ocupações nas escolas públicas do estado em 2015, conta a história de dois protagonistas, Sofia e Ciro, que são estudantes em uma escola que sofre com a falta de merenda, problemas de infraestrutura e ameaças de fechamento. Quando os estudantes decidem iniciar as ocupações, Sofia e Ciro não participam no primeiro instante, no entanto, percebem a importância das reivindicações. À medida que se integram ao movimento, a pressão policial aumenta para que haja a saída dos alunos a qualquer custo.

Alunas utilizam os produtos orgânicos da Surya, em atividade antes da exibição do filme

Fran Santos, Jady Maria Bandeira, Paulo Pinheiro e Bianca Cristina, todos do elenco do filme, além do diretor Costa e do produtor Well Darwin participaram da sessão, ao ar livre, que lotou o estacionamento da escola ao lado do pátio. As cadeiras não comportaram os mais de 250 alunos que se ajeitaram em bancos do refeitório da escola ou nas muretas e degraus da área externa da escola. Ao fim da sessão, um descontraído bate-papo animou a equipe do filme e os espectadores.

Darwin acompanha “Selvagem” em todas as sessões realizadas em festivais e projetos como CineB Solar. Presente na última sessão no bairro Barragem, extremo sul paulistano, não deixou de comparecer nesta também. Para Darwin, é de extrema importância levar o filme nas escolas, principalmente as estaduais e nas periferias, pois o público que assiste se vê representado e entende o filme por viver naquela situação que a história mostra. Para ele, “Selvagem” é um filme sobre micro e pequenas revoluções do nosso dia a dia. “Quando os alunos estão discutindo quem vai fazer a comida, quem vai dar tal aula, quem vai dar tal oficina, eles estão mudando a estrutura, pois o normal é que eles só recebam ordens e coisas a fazer. Então o que estamos propondo é que esta mudança parta da microestrutura”, diz.

A professora Elizângela (Lili), uma das coordenadoras das atividades no Leopoldo Santana

Os atores se envolveram com a sessão e o público ao acompanharem, pela primeira vez, o filme sendo exibido numa escola pública. Paulo Pinheiro, que atualmente trabalha com audiovisual e interpretou o personagem Josué, acha “Selvagem” um filme muito importante, tanto para sua carreira, quanto para abrir seus horizontes sobre a realidade das escolas públicas de São Paulo. “Se tivessem atividades como essa [organizada pelo CineB Solar] na minha ou em outras escolas, a gente teria uma visão de cinema muito diferente do que temos hoje”, destaca.

Bianca Cristina, estudante de psicologia que interpretou Jéssica, fala sobre o quanto participar de “Selvagem” mudou sua maneira de pensar em alguns aspectos políticos: “o filme não passa uma resistência contra o Estado, mas contra o racismo, o machismo, então me deixou muito mais forte do que eu já era”, revela.

Sam (à esquerda) ouve explicação de Diego Costa (à direita), acompanhado pelo elenco e produtor do filme

Jady Maria Bandeira, atriz formada em orientação comunitária, que interpretou Bruna no filme, conta ter ficado com um papel que a definia muito bem, não apenas como personagem, mas como pessoa. Moradora da Zona Sul de São Paulo, participou ativamente das ocupações na escola onde estudava, no Jardim São Luiz, e integrou o elenco do filme depois de saber dos testes por um amigo através do Facebook. “Levar o filme aos estudantes é levar informação. Vê-los assistindo um filme sobre seus direitos é uma potência muito grande”, destaca.

Helder Miranda, diretor da escola e grande incentivador do projeto CineB Solar entre os jovens, aprovou a atividade que reuniu a produção do filme e os estudantes de Ensino Médio. “A gente vem de um movimento de empoderamento da juventude, de trabalho com a garantia dos direitos deles e este filme veio a calhar para mostrar a mensagem de que a escola é um espaço público, um espaço que é deles e eles precisam se apoderar deste espaço”, comentou, ao final da sessão.

UM DEBATE ACALORADO
Ao fim da exibição, a equipe do filme se reuniu em frente do telão e debateu com a comunidade escolar. Samuel de Sama, estudante e músico, quis saber se foi de propósito que o elenco tinha nos papéis principais, pessoas negras. O diretor Diego Costa lembrou que “54% da população brasileira é composta por negros” e que o filme procurou reproduzir a realidade das escolas públicas.

Fran Santos e elenco respondem às perguntas do público

uestionada se tinha participado das ocupações, Fran Santos, contou que diretamente não, mas “que deu apoio aos estudantes de uma escola perto de sua casa”, na região do Capão Redondo. Jade Cristina contou que sua experiência na ocupação fez com que palpitasse muito no roteiro do filme. “Eu falava para o Diego [Costa, o diretor], ‘não é assim, não foi assim que aconteceu’”, destaca. Ao serem perguntados por uma das alunas qual parte mais marcou e foi mais difícil para os atores durante a filmagem, Jade Cristina lembrou de quando passou mal enquanto gravava a cena da invasão da escola pela polícia, pois ela chegou a ser presa. “Minha mãe foi me buscar na delegacia, foi uma coisa que eu nunca imaginava que poderia acontecer, porque estávamos lutando por uma educação de qualidade”, relembra. O debate se estendeu até o final do horário das aulas mas, pelos alunos, a conversa duraria a noite toda.

Samuel Oliveira Gama, conhecido como Sam, estudante e músico, diz o quanto se sentiu representado pelo filme: “eu curto cantar, dançar, escrever poesia, rap, e eu vi no filme a galera tendo este trabalho colaborativo, eu achei muito legal, porque quando a gente tem um contato com a arte, não tem isso de sou músico ou ator, a gente acaba conhecendo de tudo e fazendo um pouco de tudo, e isso no final faz com que temos um produto melhor”, avalia. Sam produz conteúdos de música em seu Instagram, @_Samxv15boy.

A partir da esquerda, Cidálio Vieira (coordenador do CineB Solar), Helder (diretor da escola) e Well Darwin (produtor do filme)

Já para o professor de História e Tecnologia da escola, Erasmo Vicente da Silva, o filme faz com que os jovens entendam seus direitos e lutem por eles. “Achei uma história muito inteligente e muito bem construída, que valoriza os jovens e sobretudo os jovens negros. Estão de parabéns” comenta.
O CineB Solar faz um agradecimento especial a toda a equipe de funcionários e professores da Escola Estadual Leopoldo Santana pelo ótimo acolhimento e grande ajuda na realização da sessão, em especial à professora Lili (Elisangela), que organizou a escola para que todos os alunos do noturno pudessem assistir o filme.

SOBRE O CINEB SOLAR
O CineB Solar é um circuito itinerante de cinema realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e pela Brazucah Produções. Desde 2007, já atingiu um público superior a 70 mil espectadores em mais de 550 sessões gratuitas, realizadas em comunidades e universidades da cidade de São Paulo. A iniciativa busca democratizar o acesso ao cinema nacional e divulgar os filmes produzidos no Brasil. Já foram exibidos na tela do CineB Solar mais de 130 longas-metragens e 80 curtas-metragens, além da realização de pré-estreias exclusivas.

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Texto: Mirella Magnani (com supervisão de Carlos Rizzo). Fotos: Mirella Magnani e Fábio Eufrásio

Publicado em 14/03/2020

CineB Solar No Jardim Gislar

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