Moradores do condomínio Vilage recebem o CineB Solar na Janela em exibição de curtas nacionais

O condomínio da zona leste da capital paulista recebeu o projeto em noite animada. Foram exibidos cinco curtas metragens brasileiros em sessão com participação ativa dos condôminos, que ajudaram na organização do evento

 

texto e fotos: Eduardo Viné Boldt

 

Dona Severina de Almeida (76) não disfarçava a satisfação. Há vinte anos ela reside no condomínio Vilage. Há quarenta anos não vai ao cinema! Com a família reunida na varanda de seu apartamento, ela acompanhou a sessão de curtas do projeto CineB Solar na janela no último sábado (21). “Um dos maiores prazeres em produzir o CineB Solar na Janela é ver que a comunidade gosta, e ainda pede mais. Tem sido assim com os moradores da Fazenda da Juta, onde realizamos nossa quarta sessão sempre com muito sucesso ‘’, disse o coordenador do projeto CineB Cidálio Vieira.

Dona Severina (primeira à direita) e sua família assistindo a exibição dos filmes

Neta da dona Severina, a estudante de farmácia Daiane de Almeida (25) ficou impressionada com o filme “Um café com meu avô Durval”, da diretora Anna Muylaert. No filme, a diretora reflete sobre a produção e consumo audiovisual nos dias de hoje, relacionando com passagens de sua vida particular. “Eu achei legal saber como tudo revolucionou, não só a cinematografia, como o jornalismo. Mas também mostrou certas coisas tóxicas que acontece hoje em dia, que não faz bem a ninguém”, pondera a estudante.

Cidálio Vieira na sessão do condominio Vilage no sabado (21)

 

Longa espera

“Eu estou há 32 anos aqui e só fui ao cinema uma vez!”, relata síndica Tania Maria Rodrigues. Ela está a vinte anos na liderança do condomínio Vilage, que conta com 60 apartamentos e quase 400 moradores. Tânia veio de Pernambuco e ajudou no movimento de luta por moradia da região. Ela se esforçou para que o projeto CineB Solar na Janela chegasse à sua vizinhança.

Tânia é síndica e liderança na comunidade

Dona Carmelita Lima Santos (77) costuma recusar os convites de suas filhas para ir até o cinema. “Não gosto dessas coisas não…”, disse a aposentada. Ela vive no Vilage com o Seu Gentil Alves dos Santos (85), seu marido.

Dona Carmelita e o Seu Gentil recebendo o pacote de milho da síndica Tania

O Seu Gentil gosta mesmo é de “filme de briga”, e nem lembra mais quando foi a uma sala escura pela última vez. “Eu era solteiro quando fui ao cinema. Faz uns 70 anos”, responde gargalhando o aposentado. Com o cinema bem pertinho, os dois confirmaram a presença. “Dessa vez eu vou”, disse Dona Carmelita.

 

Dá um Filme

Esse ano o CineB Solar na Janela esteve por diversas vezes na região da fazenda da Juta, na zona leste da capital paulista. Parte significativa dos condomínios da região foram levantados através do trabalho dos próprios moradores. “É uma região histórica da cidade. Aqui era um grande terreno. Aqui teve muita luta social, muita luta por moradia. Por condições melhores de vida”, ressalta o secretário de cultura do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região Marcelo Gonçalves.

Marcelo Gonçalves esteve presente na sessão promovida pelo CineB Solar na Janela

Tania é prova viva dessa luta. “Eu trabalhei em mutirão. Fiquei três anos na luta para ganhar a terra. Depois que nós ganhamos, tivemos que trabalhar. Passei mais 3 anos trabalhando e depois que construímos, viemos morar” relembra a pernambucana que a duas décadas atua como síndica.

Com uma trajetória marcante, os condomínios e moradores da região da fazenda da Juta são um exemplo de que com luta e resistência, os objetivos mais improváveis podem ser realizados. “Aqui tem uma grande história que, em algum momento, tem que virar cinema brasileiro. Tem que virar um filme”, pondera Marcelo.

 

Curtas exibidos na sessão

Carne (2019) de Camila Kater – documentário de animação que compartilha os relatos íntimos de cinco mulheres e suas relações com seus corpos.  Rachel Patrício, Larissa Rahal, Raquel Virgínia, Valquiria Rosa e Helena Ignez discorrem sobre assuntos como climatério, violência, gordofobia entre outros temas do universo feminino.

Gato the cat – o gato sem botas (2019) – curta de animação produzido pelo estúdio Paulares, da cineasta mineira Paula de Abreu. A obra narra a aventura de um gatinho de rua que se une a uma bota falante para escapar de uma família de vilões viajantes do tempo-espaço.

Um café com meu avô Durval (2021) – curta foi realizado durante a pandemia pela cineasta Anna Muylaert. A obra tem um caráter pessoal e afetivo, que envolve a relação da diretora com seu avô e uma reflexão sobre a produção audiovisual em tempos de superexposição nas redes sociais.

Umbrella (2019) – de Helena Hilário e Mario Pece. O filme é inspirado em eventos reais da vida da própria diretora. O curta segue a história de um garoto que vive em orfanato e sonha em ter um guarda-chuva amarelo, objeto que remete a memória de seu pai.

A Invenções de Akins (2018) de Ulisver Silva – curta infantil que apresenta o jovem Akins, um menino que elabora seus próprios brinquedos. Inspirado por um programa de TV, ele resolve construir sozinho uma máquina de Rube Goldberg, feita com sucatas e material disponível. Também com forte inspiração pessoal, o filme destaca história de autoestima do pequeno garoto.

 

Sobre o CineB Solar
Criado em 2007 pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, o CineB passou a se chamar CineB Solar em 2018, quando passou a circular com uma van que gera, através de placas solares, a própria energia consumida no evento. Já atingiu um público superior a 75 mil espectadores, 160 bairros percorridos, em mais de 580 sessões gratuitas realizadas em comunidades e universidades de São Paulo. Nesse momento de isolamento, para evitar aglomerações, se reinventaram e prepararam novos projetos: CineB on-line, CineB Solar na Janela e CineB Autorama, ações para que todos possam ficar em casa e se divertir com uma sessão de cinema.

 

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